Hoje a Musa me provoca,
a que bem pelo miúdo
nada cale, e diga tudo,
quanto me vier à boca:
como digo, hoje me toca
meter minha colherada,
que nem sempre ter calada
a boca parece bem:
mas não o saiba ninguém.
Parece, que já começo
a dizer alguma cousa,
e para que o mundo me ouça,
já mil atenções lhe peço:
que não sou sábio, confesso,
para falar elegante;
porém digo, andando avante,
que vejamos o desdém;
mas não o saiba ninguém.